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CONTATO

Nas trilhas da Pedra Branca

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Enviado por Roberta Schwinzer em 26/05/2000



Texto original: Roberta Schwinzer
Adaptação: Letícia de Assis


Um surpreendente penhasco, a 20 km do centro de Florianópolis, oferece excelentes condições para a prática de trekking, alpinismo e off-road.

    Aos poucos, o movimento da cidade vai ficando para trás. Os carros e caminhões que congestionam a BR-101 em São José, na Grande Florianópolis, vão saindo de cena e dando lugar à mata exuberante. A estrada troca o asfalto pelo chão batido e o ar muda, tornando-se mais puro. É hora de juntar energias, abandonar o carro e conhecer de perto cada detalhe da estrada que leva ao cume da Pedra Branca.
    Nenhuma manhã ensolarada nos recebe na chegada. Pelo contrário, uma densa névoa cobre a maior parte da Pedra Branca, uma importante formação rochosa que atrai uma legião cada vez maior de alpinistas, trekkers, bikers, jipeiros, motoqueiros ou simples amantes da natureza. Animado, apesar da baixa temperatura da manhã, nosso grupo de 11 ecoturistas junta mochilas, energia e disposição, iniciando a caminhada até o topo da rocha.
    Desde o começo a trilha anuncia o que nos espera nos 2,5 km do percurso. O aroma refrescante do mato, ainda molhado pela umidade da noite, é quem nos dá boas vindas.


Motos, jipes e lama

    De repente, o som do vento que espalhava o canto das aves pela trilha deserta é apagado por inesperados roncos de motor. São motoqueiros, com suas roupas coloridas e máquinas barulhentas, abrindo caminho para a aventura. Assim como abruptamente chegam, partem num rastro de fumaça branca. Atrás deles surgem os jipeiros e nosso grupo, ao invés de protestar contra esta súbida invasão tecnológica, prefere aderir à novidade e pedir carona.
    São quatro jipes, nos quais nos acomodamos da melhor maneira possível, ansiosos para conhecer os prazeres e a adrenalina do off-road. Não demora muito e o esperado acontece: o jipe que segue na frente atola. Como a união faz a força, descemos todos para empurrar. Na tentativa de desatolar o jipe, a lama se espalha democraticamente por nossos sapatos, calças e cabelos, produzindo muitas risadas.
    Sujos, mas satisfeitos, resolvemos seguir a pé até a clareira, terreno desmatado em meio às brenhas e pedras, que marca a metade do percurso. Jipeiros, motoqueiros, alpinistas e trekkers se reúnem ali, confraternizam e posam para a foto oficial.


O Paredão

    Partindo da clareira, cada um toma um rumo diferente. Os motoqueiros se dispersam, os jipeiros seguem caminho em busca de novas trilhas e nós, guiados por cinco alpinistas, entramos mata adentro. O caminho escolhido é uma trilha feita pelos próprios alpinistas e só quem conhece o caminho é capaz de localizar, em meio à mata fechada, o paredão da Pedra Branca.
    À medida que avançamos, o caminho irregular assume um ar sombrio e lúgubre. Num cenários daqueles não é de se admirar que lendas apareçam, como logo pudemos comprovar. Enquanto caminhamos, cada guia vai contando o que sabe sobre o lugar que, segundo eles, de dia é um dos cartões postais mais belos da Grande Florianópolis, mas à noite traz medo e insegurança.
    O percurso sinuoso vai revelando a beleza do local. Cipós, árvores de todos os tipos e brotos de  orquídea beiram o caminho. A trilha escorregadia e os inúmeros buracos dissimulados pelo capim são alguns dos obstáculos que encontramos pelo caminho, insuficientes para nos fazer desistir. Divertidos e, algumas vezes doloridos, os tombos e escorregões se sucedem. Enfim, chegamos!

A escalada

    Alcançar o pé do paredão é uma sensação inspiradora. Não só pelo contato com a mata, com a lama que deixa o solo escorregadio e com os buracos que nos surpreendem pelo caminho, mas muito mais por aquilo que nossos olhos vislumbram quando atingimos o pé do paredão. É possível ter uma visão das cidades de São José, Palhoça, Florianópolis e Biguaçu. A amplidão é indescritível. Nem quem já se acostumou com a trilha fica indiferente diante de tanta beleza: campinas, montes, cidades e águas formam juntos um cenário deslumbrante que estimula os olhos e o coração.
    Após alguns momentos de silêncio contemplando a vista, é hora de preparar a subida. Dois alpinistas se aprontam para escalar uma das vias mais difíceis, a Spider Brown, com uma inclinação vertical de 130 metros. Emerson Maturana e Juliano da Silva levam quase duas horas para escalar a pedra. Juliana Melo e Roberta Nunes, também alpinistas, preferem escalar a outra faceta do paredão, enquanto nosso grupo segue a trilha em direção ao cume da pedra. Uma caminhada de meia hora nos leva ao local.
    No topo é hora de conhecer os prazeres do alpinismo e escalar a Pedra Branca. O grupo se separa. Alguns optam pela aventura, o restante prefere descansar e apreciar o belo cenário. A via conhecida como Salésios é considerada de nível fácil e própria para iniciantes. Por ela descemos “rapelando” 20 metros, antes de começar a escalada que nos leva de volta ao cume. Aos poucos a tarde cai e somos envolvidos pela densa bruma que rapidamente se espalha, escondendo toda a vista.

Adrenalina solta

    A sensação que se tem é de realmente fazer parte da rocha. Agarrados a ela, mãos e pés buscando pequenas fendas e saliências onde se apoiar, a adrenalina corre solta. Quando se olha direto para o precipício coberto pela névoa, tem-se a sensação de haver alcançado o céu. Somente o contato físico com a rocha transmite um pouco de segurança e desmente a ilusão. São momentos intensos, essência do prazer de praticar alpinismo. Momentos quase dramáticos, completamente emocionantes. Só quem experimenta é capaz de entender a sensação. Alcançar o topo de um local privilegiado como a Pedra Branca, pisando em terra firme e plana, é realmente uma sensação prazerosa, mas nada que se compare à experiência de ficar pendurado entre a terra e o céu, seguro apenas por uma corda. É sublime.