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CONTATO

Nos tempos do vapor

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Enviado por Maria Paula Bonilha em 03/06/1998

Texto original: Maria Paula Bonilha
Adaptação: Letícia de Assis

Um nostálgico passeio de maria-fumaça pela serra do norte catarinense revive cenários antigos de montanhas, túneis e cachoeiras.

    A cerração cobre toda a paisagem. Vista da janela do hotel, de manhã cedinho, Rio Negrinho parece tentar se esconder sob a névoa, a quase 800 metros de altitude. Tímido, o sol vai dissipando lentamente o nevoeiro. Pouco depois, a pequena e charmosa cidade, situada no planalto norte catarinense, ganha uma delicada capa esbranquiçada. Soam os sinos da igreja.
    O cenário compõe a rotina de uma manhã de sábado em Rio Negrinho, dia em que a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) de Santa Catarina organiza passeios com trens puxados por antigas locomotivas a vapor – as Marias-Fumaças – pela Ferrovia das Cachoeiras. O percurso é emoldurado pela Serra do Mar, que abre seus cenários de cascatas e desfiladeiros cobertos por exuberante Mata Atlântica aos aventureiros de várias regiões do país e até do exterior.

Embarcando no passado

    Água, lenha, vapor e pressão. A mistura é simples, mas esta química desperta muita curiosidade. Enquanto um funcionário dá as últimas vassouradas nos vagões, os passageiros conferem de perto a imponente máquina fabricada em 1941. Sob olhares atentos, o maquinista Ralf Ilg faz os últimos acertos na calibragem do óleo que lubrifica as engrenagens, e da água, que vai se transformar no vapor que impulsiona a locomotiva.
    A paisagem serrana é tão cobiçada que um grupo de ciclistas de Curitiba, que percorrem a região sobre duas rodas no dia anteior, agora ocupam dois vagões da Maria-Fumaça, para sentir a atmosfera que se desprende dos trilhos do passado. Dentro da locomotiva, dois meninos – um deles filho de Ilg -, acostumados à rotina da serra, encarnam o espírito de liberdade do passeio.

Paisagem rural

    Até a chegada da primeira estação, Serra Alta (São Bento do Sul), a viagem é marcada por paisagens rurais. Uma forte melancolia toma conta dos passageiros. Rompendo o limite dos batentes das janelas, uma fileira de cabeças tenta apreender toda a beleza do cenário. Dentro de um vagão, a 30 km/h, fica fácil contemplar detalhes das modestas casas de madeira, pequenas fazendas, rios, cavalos, famílias acenando e as inevitáveis crianças correndo atrás do trem. No alto, as araucárias formam uma barreira intransponível para os olhos.
    O trem vai diminuindo a velocidade, até parar, com um gemido de vapor, na estação da Serra Alta. A igreja toda o sino enquanto os passageiros saltam para a plataforma, dominda por um certo ar de nostalgia e abandono.

Rio Vermelho

    Depois de uma hora de viagem (22 km), chega-se literalmente ao ponto alto da aventura, a 820 metros de altitude. Rio Vermelho, vila de São Bento do Sul, marca o início do que todos esperam: a descida da serra.
    Nova parada. A locomotiva se desprende dos vagões para fazer a volta e engatar de ré. A manobra torna mais segura a aventura. Durante a opeção, passageiros fazem um lanche no vagão-restaurante. No cardápio, cachorro-quente com salsichas aferventadas em água colhida na caldeira.
    Nos quatro primeiros quilômetros da serra, a paisagem comprime os vagões com um verde radiante. Estendendo o braço, é possível tocar com facilidade as samambaias que surgem aos montes nas encostas dos trilhos. Do lado direito, um banhado nos dá pistas da nascente do Rio Negrinho.

Festa Polaca

    Com a chegada do túneis, as melhores panorâmicas se abrem. Formações rochosas irrompem do paredão verde somando-se às flores coloridas e aos troncos revestidos de folhas. O cheiro forte da mata se alterna com o da fumaça produzida pela queima da lenha nos túneis.
    No final da serra, um pássaro sobrevoa a Capela de Jesus Ressucitado, a 2 km de Rio Natal, nosso ponto de chegada. É dia de festa na cidade colonizada por poloneses. A hospitaleira comunidade nos recepciona para a Festa de Reencontro da Amizade.
    Entre uma escola e o cemitério do povoado, a capela de arquitetura polonesa se destaca no cenário descampado. Uma eficiente estrutura conjugada à igreja foi montada para recepcionar os turistas. Galpões de madeira abrigam extensas mesas onde são servidos o Aluski (repolho recheado com arroz, linguiça, bacon e cebolinha) e o Piroguê (espécie de ravioli com queijo branco e molho com peito de frango).

Retorno

    A Maria-Fumaça apita pontualmente às 14h, em Rio Natal. Hora de voltar. Na subida da Serra, uma fantástica imagem na entrada de um dos maiores túneis do percurso. A fumaça do carvão vai ganhando a boca do túnel, em câmera lenta, até nos deixar completamente no escuro. Com o retorno da luz, borboletas coloridas pincelam o céu em ziguezague. Na despedida, pequeninas folhas amareladas insistem em cair nos dormentes. Um quadro para fixar na memória, um encerramento digno para uma nostálgica aventura por um dos cenários mais lindos de Santa Catarina.

Mares do Sul número 22, ano 5