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CONTATO

Canyoning – Emoções no Vale das Cachoeiras

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Enviado por Rogério Monteiro em 06/02/1998

Texto original: Rogério Monteiro
Adaptação: Letícia de Assis

No Alto Vale do Itajaí, cinco municípios abrigam um vale com mais de 150 cachoeiras, trilhas pitorescas e recantos inexplorados de Mata Atlântica.

    Medo e euforia. Poucos esportes propiciam uma passagem tão rápida entre estes dois sentimentos opostos como o canyoning – a descida de cachoeiras ou cânions. Com a vida suspensa por uma simples corda, você despenca por abismos de 60, 80, 100 metros, cercado por paredões de rocha, samambaias gigantes e a grandiosidade da Mata Atlântica. Milhões de litros d'água rugem a espumam ao seu lado, debaixo de você, sobre sua cabeça. O medo – verdadeiro pavor – que se apossa dos iniciantes nos procedimentos iniciais de descida é imediatamente substituído por intensa euforia – quase felicidade – no momento em que a corda estica e como num passe de mágica passa-se a flutuar sobre o abismo.
    O Vale das Cachoeiras – reduto de mais de 150 cascatas que abrange terras dos municípios de Presidente Getúlio, Vitor Meirelles, José Boiteux, Witmarsun e Dona Emma, no Alto Vale do Itajaí – é o cenário ideal para quem deseja sentir toda esta emoção. Mas também encata aventureiros menos radicais. Além das cascatas, possui nos seus 1.451 km° de área grandes reservas de Mata Atlântica primária, recortadas por trilhas ecológicas, riachos murmurantes e uma vida rural extremamente interessante. Situado a 80 km de Blumenau e 220 km de Florianópolis, o vale é uma oferenda da natureza que vale a pena ser explorada, seja a pé, a cavalo ou de bicicleta.

Descobrindo o paraíso

    A Toyota ruge serra acima, galgando a estradinha de terra cercada pela mata fechada. Lá no fundo do vale avista-se, vez por outra, um riozinho espalhando rendas brancas por sobre as pedras do seu leito. Passamos por inesperadas casas coloniais de estranha arquitetura, campanários, cabelos loiros que assomam curiosos das janelas. Plantações de fumo com suas estufas, antigos moinhos de água, famílias de porcos cruzando tranquilamente a estrada. Cenários bucólicos que acariciam nossos olhos urbanos e parecem chocar-se com a parafernália de roupas de neoprene e capacetes coloridos, cordas e equipamentos de alpinismo que levamos na caçamba da pick-up.
    De repente, numa curva da estrada, a cachoeira. A boca fica seca, um friozinho estranho percorre a espinha. A cachoeira é alta – mais de 80 metros – e por causa das chuvas da primavera está com grande vazão de água, provocando um troar que parece – pelo menos aos ouvidos de um ansioso candidato a aventureiro – sinistro. Todos procuram aparentar tranquilidade de veterano, enquanto a Toyota pára à beira da estrada e a equipe prepara os equipamentos, antes de nos embrenharmos na mata em direção à queda d'água.
    A trilha serpenteia por entre árvores centenárias, canelas e cedros ornamentados com cipós, bromélias e vários tipos de flores. Lá do alto, um bando de jacus nos espreita, alertando a floresta com seus gritos estridentes. O rugir da cachoeira aumenta à medida que seguimos o curso quase sonolento do rio. De repente, a floresta acaba, como que tragada pela terra, e um enorme anfiteatro de pedra se abre à nossa frente, grandioso. O riozinho, antes plácido, transforma-se num jorro de espumas selvagens, desprendendo-se do seu leito, num repentino salto mortal e despencando por 86 metros antes de estatelar-se rugindo contra as pedras lá embaixo. Ficamos todos ali parado, em silêncio, envolvidos pela beleza do espetáculo.

Medo em estado puro

    As mãos suam debaixo das luvas, o coração dispara. O estômago se contorce de pavor e na espinha um frio estrangeiro sobe e desce como um termômetro desregulado. Olhos arregalados miram o cânion formado pela enorme cachoeira e a vontade irracional de fugir enquanto é tempo transforma-se numa verdadeira obsessão. De algum ponto obscuro, lá dentro, brota o medo em seu estado mais puro, este sentimento insano, irracional, que leva as pessoas a cometer desatinos, perder a vergonha e revelar-se em toda a sua fragilidade humana.
    A visão do imenso anfiteatro da Cascata do Forno, uma das maiores e mais lindas do Vale das Cachoeiras, é magnífica mesmo para quem está morrendo de medo. Toneladas de águs lançam diáfanos véus de espuma pelo espaço. Lá embaixo, looonge, enormes pedras negras parecem espreitar suas próximas vítimas. Apenas a obrigação profissional de repórter, a confiança na qualidade dos equipamentos e a recusa em passar novamente pela humilhação de retroceder (que já rendera um fraldão de presente da equipe), impedem o vexame e levam aos primeiros passos robotizados em direção ao destino cruel.

Pairando sobre o mundo

    Vencer a borda do penhasco, de costas para o abismo, é difícil. As mãos feito garras recusam-se a libertar a corda, os músculos enrijecidos não obedecem aos comandos da mente. Imagens indistintas percorrem o cérebro entorpecido pelo medo, no íntimo brota uma imensa saudade de casa – de bolinho de chuva, Domingão do Faustão, estas coisas pacatas, normais e menos arriscadas. Mas de repente, o paredão de pedra recua, o pé perde contato, num passe de mágico paira-se leve sobre a cachoeira, o rio, a mata, o planeta inteiro.
    Os sentimentos revertem-se. O medo vira euforia, sensação de poder. Ficamos ali balançando entre a pedra, a água e o céu, cúmplices de partes do cenário à nossa volta. Os gritos insistentes da equipe de Rappel pedem a continuação da descida, para que os demais também possam descobrir a aventura.
    Ao pé da cachoeira, a vontade é de subir correndo e começar tudo de novo. Na trilha de volta, a última olhada para a cascata que se perde entre as árvores, dois sentimentos diversos dividindo o coração: orgulho por haver vencido o medo e ter sido “batizado” numa cascata tão grande e impaciência para esperar pela próxima descida.