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CONTATO

Breve sonho de liberdade

« Voltar para Encantos do Sul e Caminho dos Cânions

Enviado por Oscar Rivas em 05/11/1997

Texto original: Oscar Rivas
Adaptação: Letícia de Assis

Fora das rotas turísticas, sem estradas nem luz elétrica, Campo dos Padres guarda em seu silêncio de pedra cenários de tirar o fôlego, que a mão do homem ainda não alterou.

    São cinco horas da manhã. Os equipamentos já estão acondicionados sobre o rack do jipe. Tomamos o último chimarrão e botamos o pé na estrada. Florianópolis e o mar ficam para trás. À nossa frente, a SC-282 abre-se rumo ao oeste como uma promessa. Os prognósticos são de frio no planalto. Muito frio.
    Depois de duas horas de viagem abandonamos a 282. Nosso primeiro destino é Urubici. No posto de gasolina da pequena cidade algumas poucas pessoas resistem ao vento gelado e observam nossas tralhas num misto de curiosidade de descrédito. Vocês vão subir os peraus? Com este frio? Os peraus. É assim que a gente da serra chama os campos de altitude. Pouca gente vai lá, no inverno ainda menos. Levamos conosco a ambição de fotografar a neve e descobrir paisagens que só a poucos privilegiados é dado conhecer.
    O sol começa a esquentar quando viramos em direção à Serra do Corvo Branco. São 35 km de estrada de chão, passando pelos pequenos povoados de Santa Tereza e São Pedro, onde famílias inteiras dividem o trabalho nos campos férteis do vale do Rio Canoas. De repente, o fim da estrada. Agora, só a pé.

Lugar selvagem

    Estamos quase lá, no Campo dos Padres. Um lugar coberto de névoas e esquecimento, alheio ao mundo civilizado. A mais perfeita tradução do lugar selvagem. Cercado de vizinhos geográficos notáveis como a Serra do Corvo Branco e o Morro da Igreja, Campo dos Padres guarda no seu silêncio de pedra as nascentes de vários rios e paisagens de tirar o fôlego. Abriga também o Morro da Boa Vista, altitude máxima do Sul com seus 1.827 metros.
    Distante escassos quilômetros do Parque Nacional de São Joaquim, Campo dos Padres possui um encanto agreste. Enquanto outras localidades da região sofrem com a voragem das madeireiras, Campo dos Padres permanece longe dos desmatamentos e das queimadas, mergulhado em lendas, remoto e de difícil acesso.
    São poucos os aventureiros que se animam a enfrentar seus “peraus”, levando nas mochilas disposição para encarar a neblina, a chuva e inúmeras outras dificuldades antes de desvendar seus mistérios. A travessia do Campo dos Padres exige três dias bem puxados: um longo primeiro dia de aproximação e subida, outro de exploração dos campos e cânions e mais um dia para descer.

Tempo instável

    O melhor acesso ao Campo dos Padres é pela Serra do Corvo Branco, no município de Urubici. Depois de atravessar tranquilos 8 km do Cânion do Canudo, empreende-se a subida acompanhando os meandros do Rio Canoas. O acesso norte, via Bom Retiro e Paraíso da Serra, é mais complicado. Passa por terras particulares e os visitantes são olhados com desconfiança. O tempo lá em cima é quase sempre instável. Por volta do meio-dia formam-se tormentas assustadoras. Raios e trovoadas descarregam chuvas torrenciais que rapidamente enchem os rios. As principais recomendações para quem se dispõe a enfrentar esta aventura são duas: primeiro, de fechar nevoeiro, não dê mais um passo. Acampe e relaxe. Mesmo nativos do lugar já perderam o rastro em meio à cerração. Segundo: carregue sempre roupa de chuva. Os aguaceiros são quase inevitáveis.
    Uma vez no topo, descortinamos um dos locais mais bonitos da trilha. Pela abundância de fauna silvestre que corre solta defronte dos nosso olhos, chamamos este lugar de “Wildlife Point”, De lá da pra ver todo o caminho já percorrido e praticamente toda a Serra da Neve. O vento frio sopra forte e até onde a vista alcança tudo é natureza intocada. Um lugar para meditar e promover o sublime encontro do homem com o sagrado.

Lugar de mistérios

    Correm histórias de tesouros. Estariam no fundo de lagoas que não aparecem onde o mapa indica ou sequer estão nos mapas. Pouco confiáveis em vista da hostilidade do ambiente selvagem, estas histórias não são confirmadas. De verdadeiro mesmo apenas o vento frio que bate como tapa em nosso rosto, o falcão planando em círculos sobre sua presa, o canto dos pássaros e o verde onipresente.
    Decidimos montar acampamento antes da tarde acabar para aproveitar a chegada lenta da noite. Estamos a 1.700 metros de altitude e faz perto de zero grau. Mas com as estrelas ao alcance da mão se torna fácil esquecer o frio, mergulhar no saco de dormir e esperar a vinda do sono.
    O dia amanhece nublado e frio. Lá vamos nós outra vez. Já estamos suando, respirações ofegantes, quando de repente no horizonte a Terra acaba. A boca da serra parece querer no engolir. Avançamos lentamente, abrindo caminho por entre a névoa, até não ser mais possível. Envoltos pela bruma quase sólida, somos obrigados a tirar as mochilas, sentar e esperar.
    A espera vale a pena. Como parte de um ritual mágico monumental, as nuvens dão lugar a uma cadeia de montanhas iluminada pelos primeiros raios de sol. Os abismos sugerem mais de mil metros de queda livre e a vertigem de ficar de pé na beira só é superada pela vontade de abraçar tudo com o olhar e guardar para sempre no coração. Quem conhece Campo dos Padres dificilmente esquece a sensação de infinito que o lugar proporciona.

Araucárias e trutas

    Nosso último dia de trilha não é menos colorido. A descida da serra nos reserva a companhia do Rio Canoas, revelando cachoeiras a cada curva do caminho. A vegetação fica mais rica e densa a cada passo. É o reino das araucárias e por todos os lados as gralhas-azuis procuram seu prato favorito: o pinhão.
    Nossa fome está no auge quando chegamos à estação de criação de trutas do Plínio. A imagem triste das comidas desidratadas dos dias anteriores é apagada com a primeira mordida desta delícia serrana, um dos peixes de água doce mais prestigiados em todo o mundo. Nada mal para o fim de mais um trekking.