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CONTATO

Sul catarinense tem sotaque italiano

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Enviado por Paulo Scarduelli em 06/04/1997

Texto original: Paulo Scarduelli
Adaptação: Letícia de Assis


Os pioneiros que construíram as cidades da região deixaram uma rica tradição cultural que é preservada pelas atuais gerações.

    O “nono” está sentado na cabeceira da mesa, empertigado. Sua figura é sisuda. As rugas no rosto e nas mãos e os cabelos brancos testemunham a passagem do tempo. A pele parece um pergaminho antigo, um mapa do sofrimento e das preocupações na nova terra. Cada sulco evoca uma lembrança na memória. Ao seu redor, a mesa farta, repleta de massas, polenta, vinhos e aquela algazarra típica da gente italiana. Filhos já grisalhos, netos adolescentes com suas namoradinhas, bisnetos corados correndo de um lado para outro, cheios de energia.
    A cena é clássica. Parece uma foto antiga já desbotada pelo tempo, mas, no Sul de Santa Catarina, esta imagem permanece bem colorida, vivíssima e alegre como o jeito contagiante deste povo que há mais de 100 anos promove o desenvolvimento e preserva sua cultura numa região composta por mais de uma dezena de municípios.
    Para ajudar na preservação das tradições, foi criada a Festa do Vinho de Urussanga, em 1978, aproveitando as comemorações do Centenário da Imigração. A polenta e o vinho tornaram-se símbolos destas tradições e Urussanga foi eleita a capital italiana de Santa Catarina.
    Ainda é possível admirar construções típicas que lembram a arquitetura colonial da Itália: cantinas escavadas debaixos das casas com velhas pipas de madeira nas quais era fermentado o vinho, o sótão de pouca altura com pequenas janelas alinhadas, varandas ornamentadas com cantoneiras de madeira e cozinhas separadas do corpo da casa.
    Um ponto de visita obrigatório é a réplica em tamanho natural de La Pietá, escultura de Michelângelo, que foi doada pelo Vaticano e está exposta no interior da Igreja Matriz. Outro é o monumento ao Centenário da Imigração, na praça Anita Garibaldi, local onde os italianos esperavam até o momento de serem levados para as colônias. As casas de pedra de Nova Veneza, marcas do “laboro” dos pioneiros, construídas no início do século e ainda intactas, também merecem uma visita.

Tradição católica

    Os italianos são conhecidos como uma gente que trabalha duro e celebra a vida com gestos largos e voz tão alta que qualquer conversa de bar parece briga. “Porco dio”, “porco cane”, “sacramento”, “madona” são expressões que percorrem a mesa durante o jogo de 'mora', regado a muito vinho. Neste mundo italiano, festa junina tem fogueira com mais de 20 metros de altura, quermesse no pátio da igreja e torneio de pênaltis.
    O Sul do estado tem forte tradição católica. A prova não está apenas no grande número de igrejas e capelas espalhadas pela região, mas na quantidade de seminários. Os agricultores descendentes de italianos ainda mandam os filhos ao seminário para estudar, pois acreditam estar garantindo seu futuro. Dentro dos seminários, há padres que vieram da Itália e ensinam aos alunos sua língua. Com isso, ajudam a manter viva a cultura da 'velha bota' por aqui.
    A missa dominical é sagrada. Os fiéis vestem suas melhores roupas e deixam os sapatos bem lustrosos.

Turismo cultural

    Em grande parte, a cultura italiana, os dialetos e o repertório das canções tradicionais atravessaram as gerações de boca em boca. Nestas circunstâncias, falar com as mãos, mais que uma mania típica gestual de italianos, foi um recurso muito útil para os contadores de história.
    Defender a cultura italiana hoje é fácil. Há alguns anos, foi tarefa perigosa. O termo italiano era sinônimo de grosso. Durante a Segunda Guerra, era proibido que se falasse outra língua que não o português. Muita gente foi presa, mesmo que estivesse apenas rezando.
    Investir na preservação da cultura italiana e na exploração do turismo étnico-cultural foi uma das saídas encontradas, já que a região não tem os atrativos naturais das praias, no litoral, e das serras em São Joaquim e Lages.
    As atrações turísticas de Orleans não são uma dádiva da natureza, mas fruto do trabalho dos homens. O paredão do Zé Diabo, por exemplo, é impressionante. São várias esculturas escavadas na rocha a 10 metros do chão, com três metros de altura cada, retratando temas bíblicos. Existe ainda o Museu ao Ar Livre, único do gênero na América Latina, com 16 unidades construídas mostrando a típica casa italiana e quase todos os tipos de máquinas e equipamentos utilizados pelos imigrantes, como ferraria, marcenaria, olaria, cantina de vinho e engenhos de farinha e açúcar.

Saudades da Itália

    Os italianos do Sul de Santa Catarina não têm paciência para esperar dois anos pela Festa do Vinho. Nos finais de semana, todos os caminhos levam às cantinas de Urussanga. Construídas no início do século, elas foram restauradas no começo da década de 90 e se transformaram em típicos restaurantes italianos, nos quais misturam-se a cozinha tradicional e a moderna. Além da polenta com galinha caipira, purê de aipim, queijo e salame, é possível também se deliciar com lasanhas, saladas e vários tipos de pastas. Tudo regado ao vinho produzido na região e muita música tradicional. Com a barriga cheia, os mais fanáticos ainda têm disposição para jogar e se entregam a barulhentas partidas de “mora” ou a longas canastras.
    E desde 1992, um convênio entre as cidades de Urussanga e Longarone (Itália) permite que os descendentes de italianos consigam mais facilmente a dupla nacionalidade, além de facilitar o acesso a bolsas de estudo e trabalho na Europa.